Chico Buarque, engenhando
Bem-Querer
Quando o meu bem querer me vir
Estou certa que há de vir atrás
Há de me seguir por todos
Todos, todos, todos os umbrais
E quando o seu bem querer mentir
Que não vai haver adeus jamais
Há de responder com juras
Juras, juras, juras imorais
E quando o meu bem querer sentir
Que o amor é coisa tão fugaz
Há de me abraçar com a garra
A garra, a garra, a garra dos mortais
E quando o seu bem querer pedir
Pra você ficar um pouco mais
Há que me afagar com a calma
A calma, a calma, a calma dos casais
E quando o meu bem querer ouvir
O meu coração bater demais
Há de me rasgar com a fúria
A fúria, a fúria, a fúria assim dos animais
E quando o seu bem querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás
Edson Pena e Guimarães Rosa, engenhando
Arvorecer
Abra os seus olhos
Nunca anoitecerá
Incerteza é o que há
No cimo dourado do arvorecer
Abra os seus olhos
Que o tempo virá
E com ele a saudade
Do vôo dourado no alvorecer
Sem sua mãe, menino
Você perde a cabeça e perde o corpo
Num segundo, o brinquedo vira outro
Só pra iludir
Abra os seus olhos
Você vai voar
Como ave que há
No cimo dourado do arvorecer
Abra os seus olhos
Que a saudade virá
Quando em casa lembrar
Do vôo dourado no alvorecer
Sem sua mãe, menino
Você perde a cabeça e perde o corpo
Num segundo, o brinquedo vira outro
Só pra iludir
