121
O duelo de um ator deveria ser com as facetas de seu personagem ou ainda talvez com os outros personagens companheiros de cena, jamais ator algum deveria duelar com outro ator. A busca do ator deveria ser a profundidade da beleza de ser personagem, a magnitude da construção de um algo além de si, jamais ator algum deveria deixar o seu eu intervir na criação. O eu desregrado, seja no ensaio ou numa apresentação, jamais deveria pisar no palco, jamais ator alguma deveria manipular um personagem.
Acessar o nosso eu para a construção é uma coisa bem diferente de deixar que esse acesso perca os limites e seja mais importante do que a própria arte. Sinto falta da superação do próprio eu em cena. A arte de um modo geral é a liberdade da alma, a superação dos vínculos sociais transpostos além do sistema, é você livre para pensar, agir e ser quem você é e quem você quiser ser, sem paradigmas, fronteiras ou muros. Ao menos creio que tenha sido isso que causou tamanha censura à arte nos tempos ditatoriais. Porém tenho me sentido no teatro como num grande coquetel social, onde não se faz história e sim carreira, não nos libertamos para a profunda criação por medo de não sermos aceitos aqui ou ali, esculhambar o outro tornou-se uma forma de avançar e os trajes de gala denotam o quanto você é bom ou não. Todos desfilando num grande coquetel, onde o público está reduzido aos convidados do coquetel, pois ninguém se importa com quem está de fora da festa – uma grande coluna social.
O ator, como ser insignificante destruindo a si próprio numa busca insana de seu ego, sem ponto de chegada na história ele constrói nada além de muralhas, não vive o teatro e apenas passa por ele. A decepção de estar mergulhado nesse engano tenta ditar controvérsias do que deveria ou não ser isso ou aquilo. E o que se quer acreditar é que, socialmente ou animalescamente, o ator deveria ser o ser humano que mais se preocupa consigo quanto ser humano.

2 comentários
Um diretor e amigo meu costuma dizer que os deuses do teatro se vingam. Um outro diretor e amigo meu também me disse que não devíamos nos preocupar tanto com nossos muitos afazeres; devíamos confiar mais nos deuses do teatro.
Talvez eles existam de fato, portanto, sendo isso uma verdade, podemos crer que não apenas esses deuses, mas uma grande nuvem de testemunhas artísticas estão assistindo a isso (Eurípedes, Shakespeare, Nelson, Íbsen etc). Podemos, quem sabe esperar que as coisas não permaneçam assim para sempre. E, dessa forma, eu finalizo esse comentário com uma frase apocalíptica: "Eles terão a sua paga!"
Nossa…