Paris, França

por Alexandra Deitos

Entre a vontade de espalhar no feed do Instagram algumas fotos da viagem pela França e o cansaço de reduzir a experiência há algumas imagens bonitas que não contemplam o todo, resolvi fazer uma coletânea caótica, meio perdida no personagem, para regressar a este blog esquecido.

Há tanto que acontece fora dos stories ou do feed das redes sociais. Tanto que, quanto mais ativa me coloco nelas, mais o mundo cresce lá fora, silencioso e fértil, além da moldura. Sinto isso como uma clareza ofuscante enquanto procuro um novo-velho enquadramento. Há sempre algo que cresce em segredo, como um iceberg que se alonga sob a superfície do visível. E, pelo gosto do exercício de ampliar a respiração ante o sufocamento, tento divagar sobre aquilo que não se vê tão facilmente.

A experiência de uma viagem é sempre empolgante para mim. Me emociona positivamente em qualquer condição. Até hoje, pois nunca se sabe quando isso pode deixar de ser verdade, é claro.

A França, mais especificamente Paris, não era meu desejo primeiro, nem segundo, terceiro ou quarto, no que diz respeito aos lugares que tenho vontade de conhecer neste vasto mundo. Arrisco dizer, inclusive, que nunca havia cogitado essa viagem até então.

Em princípio, quando meu amigo comentou que gostaria de passar o final de ano em Paris, me empolguei, pois a proposta era fazermos a viagem de carro: saindo de Portugal, passando pelo interior da Espanha até chegar à França, num roteiro inspirador que logo comecei a imaginar e organizar.

Alguma das muitas igrejas e praças de Paris

Por motivos não muito claros nem lógicos, acabamos comprando as passagens de avião sem muito debate sobre essa mudança, de forma que tive minha primeira grande frustração. Em pouco tempo, a viagem que, no meu imaginário, seria uma road trip tornou-se uma viagem focada em pontos turísticos.

Vista a partir da Torre Eiffel

Aproveitei como possível, sem perder o espírito de viajante, e fui presenteada em muitos momentos pelas belezas da França, em especial pela neve que caiu como há tempos não caía em Paris.

Mas muitos percalços marcaram também essa viagem, questões mais subjetivas e que talvez eu ainda não saiba formular completamente. Foram vinte dias num período muito estimado pela reflexão e introspecção da passagem de ano, intercalada às comemorações e festividades do mesmo. Essa ambiguidade esteve presente o tempo todo: o estar no mundo e isolar-se dele.

A Europa está sempre em grande estima no mundo. A arte em museus também. Muito difícil é estar na contramão dessas opiniões e, ainda assim, transitar por esses espaços bela e feliz. Contradições difíceis de formular. Detalhes me chamam a atenção em intervalos entre o monumental e o trivial. Quando possível, busco o silêncio por trás do frenesi.

Detalhe no Palácio de Versalhes

Paris me ofereceu brechas na minha busca para dentro de mim. Fendas sutis no tempo, no olhar, na rotina. Pequenas aberturas por onde pude me esgueirar para dentro de mim mesma, longe da pressão de ser turista, de ter que admirar o que todos admiram, de sorrir diante do que se espera que encante. Brechas estas que talvez tenham salvo a viagem do turismo puro e me devolvido um pouco à condição de viajante.

Fim de tarde em Versalhes

Coisas que só encontram forma depois, em silêncio, com tempo, com palavras lentas. Como estas. Assim, é importante agradecer aos detalhes que fazem esse caminho de abertura e, principalmente, às francesas (naturalizadas, sim, e justamente por isso mais importante para mim) que me permitiram adentrar um pouco mais no cotidiano de Paris.

Quanto a Europa, até agora ela me deu dois espetáculos inesperados e fantásticos: a neve e o terremoto. Um branco, outro bruto. Ambos me lembram que o chão e o céu nunca estão tão firmes quanto imaginamos. E talvez seja justamente nessa instabilidade que reside a possibilidade de nos deslocarmos. Não apenas no espaço, mas dentro de nós mesmos.

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